BIC / VML Brasil · 2025–2026
The Shakespeare BIC
Reconstruindo a escrita de Shakespeare para um robô.
Reconstruí a escrita atribuída a Shakespeare como um sistema de linha única que um robô pudesse reproduzir com uma única BIC.

BIC / VML Brasil
Creative Tech Designer
Design assistido por IA, Tipografia generativa, Escrita robótica
2025–2026
01O ponto de partida
Um clássico inteiro escrito com uma única BIC
Uma BIC Cristal escreve por até três quilômetros. Para comemorar os 75 anos da caneta, a VML transformou esse dado num briefing bem ao pé da letra: escrever um livro inteiro com uma única caneta. O livro escolhido foi Romeu e Julieta.
A ideia dependia de duas coisas funcionando juntas. Era preciso chegar a uma versão crível da escrita de Shakespeare e fazer um robô reproduzi-la, página por página, com tinta de verdade.
02Como participei
Um alfabeto a partir de três páginas
Não existe um manuscrito preservado de Romeu e Julieta. O material mais próximo que tínhamos eram três páginas de Sir Thomas More, amplamente atribuídas a Shakespeare.
Entrei no projeto pela Bolha como Creative Tech Designer e fiquei responsável pelo sistema de escrita. As imagens digitalizadas eram antigas, pequenas e difíceis de ler, então montei um fluxo de restauração com apoio de IA e visão computacional para ampliar e limpar esse material antes da análise.
Depois, montei um segundo fluxo para transformar os bitmaps tratados em vetores de linha única. O resultado ainda era ponto de partida. Comparei amostras, interpretei marcas incompletas, redesenhei os caminhos à mão e trabalhei com o time na montagem do alfabeto e de suas variações numa família tipográfica para o robô.


03Sistema de letras
Uma fonte desenhada como um só caminho
A maioria das fontes digitais é feita de contornos fechados, preenchidos na tela ou na impressão. Quando um robô de desenho segue esses contornos, ele passa pelas duas bordas da letra e deixa um vazio no meio.
A máquina precisava de um caminho pelo centro de cada traço. Construí cada caractere como um percurso de linha única, indicando onde a caneta começava, como se movia e onde terminava.
Uma curva podia funcionar bem na tela e ainda produzir um movimento ruim na máquina. Começos, finais e conexões precisavam funcionar como gestos físicos, além de formar letras.

04Variações
212 páginas sem cara de texto digitado
Quando o mesmo “a” minúsculo aparece ao longo de 212 páginas, a repetição logo entrega a fonte. Desenhei várias versões das letras maiúsculas e minúsculas para evitar que formas idênticas continuassem se acumulando na página.
Alguns glifos também ganharam formas contextuais para o começo, o meio e o fim de uma palavra. A escolha considerava a posição da letra e a conexão com as vizinhas, mantendo tudo reconhecível como parte da mesma escrita.
O alfabeto passou por 23 iterações. Mais de 22 características da escrita foram estudadas, com feedback caligráfico e forense voltando aos desenhos entre uma rodada e outra.

05Testes
Quem dava a palavra final era o papel
A tipografia e a configuração do robô foram ajustadas lado a lado na Bolha. Trabalhei perto de quem configurava a máquina, testando cada passagem em tinta e levando os movimentos estranhos de volta para os desenhos.
Um ponto que parecia inofensivo no Illustrator podia criar uma conexão estranha ou uma pausa pouco natural no papel. O robô deixava esses problemas evidentes. Cada teste ajudava a simplificar um caminho, ajustar uma junção ou repensar como a caneta deveria atravessar uma palavra.
A equipe também desenvolveu um suporte sob medida para a BIC Cristal e calibrou a máquina de acordo com a caneta, o papel e o tamanho final da página.

06Onde chegou
Dois livros, traço por traço
O robô passou 20 dias escrevendo a primeira edição em português, com todas as suas 212 páginas. O livro pronto foi apresentado ao Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, enquanto uma segunda cópia ficou com a BIC.
Depois veio uma edição em inglês, com 226 páginas, entregue à Royal Shakespeare Company em Stratford-upon-Avon. A mesma BIC Cristal foi usada no texto e nas ilustrações. As páginas prontas transformaram a promessa dos três quilômetros numa coisa que dava para segurar.

07O que ficou
O olhar precisava acompanhar o processo inteiro
Usei IA em duas partes bem específicas do projeto. Um fluxo facilitou a leitura das imagens digitalizadas. Outro abriu um caminho mais rápido do bitmap ao vetor. Ao redor dessas ferramentas, o trabalho era comparar referências, desenhar, limpar os caminhos, montar a fonte e testar bastante em tinta.
O cuidado maior estava nas passagens de uma etapa para outra. Alguém precisava avaliar o que ainda era crível numa imagem danificada, qual caminho preservava o caráter do traço, onde uma variação funcionava dentro da palavra e se o movimento do robô ainda parecia escrita à mão no papel. Essa medida ficou comigo: construir ferramentas úteis, entender quando elas deixam de ajudar e continuar perto o bastante para avaliar o resultado.
Reconhecimento
Prêmios selecionados
O projeto recebeu prêmios em design, tipografia, impressão, craft com IA e tecnologia criativa. Uma seleção:
Prata em Design e Print & Publishing; Bronze em Industry Craft.
(abre em uma nova aba)The One Show · 2026Ouro, três Pratas, quatro Bronzes e dois MéritosReconhecimento em craft com IA, tipografia, dados, design, impressão e tecnologia criativa.
(abre em uma nova aba)Clio Awards · 2026Um Ouro e três prêmios de PrataIncluindo Ouro em Direção de Arte e Prata em Tipografia, Impressão e Uso Criativo de Dados.
(abre em uma nova aba)El Ojo · 2025Gran Ojo, Ouro e duas PratasReconhecimento regional em Design e Impressão.
(abre em uma nova aba)Gerety Awards · 2025Ouro em Innovation CutPremiado em Print, Press and Single.
(abre em uma nova aba)London International Awards · 2025Bronze e FinalistaBronze em Print e finalista em Print Craft / Visual Design.
(abre em uma nova aba)Leia mais
Outros registros do projeto
O filme acompanha o projeto desde a referência histórica da escrita até o livro pronto.
(abre em uma nova aba)Case do projetoBolha: Uma BIC, um livro, dois clássicosA página da Bolha reúne imagens do processo e uma visão geral da produção técnica.
(abre em uma nova aba)Making ofClube de Criação: Romeu e JulietaUma cobertura detalhada da pesquisa, do desenvolvimento do alfabeto e do processo de produção.
(abre em uma nova aba)Arquivo de prêmiosRegistro do projeto no The One ShowUma visão geral em inglês da ideia, da execução, dos resultados divulgados e dos créditos.
(abre em uma nova aba)CréditosClube de Criação: registro de Cannes 2026A lista pública mais completa da campanha, incluindo meu crédito como Designer.
(abre em uma nova aba)Arquivo de designD&AD: The Shakespeare BICUm resumo internacional do projeto com uma galeria de imagens.
(abre em uma nova aba)Créditos
AgênciaVML Brasil
ClienteBIC / Cristal Dura+
Produção tecnológicaBolha
Creative Tech DesignerCadu Fantin
Produção de imagemHogarth Worldwide Brasil / Equipe VML Brasil
IlustraçãoMarcelo Braga e Antonio Luvs (Studio OIO)
Impressão e produção do livroP+E, Renata Manzke, Sônia Negrão, Fernanda Fiore e Marcio Ranoel
Produção de somCarbono Sound Lab